1º Encontro - 02/09/2020
• Apresentação do Seminário.
• Introdução à Criminologia.
• 3 campos para pensar a Criminologia: jurídico, sociológico e Psi (Psiquiatria, Psicologia e Psicanálise).
• Introdução à Psicanálise.
• Contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan para a Criminologia.

2º Encontro - 16/09/2020
• O crime das irmãs Papin.
• Sigmund Freud: delírio como tentativa de cura.
• Jacques Lacan: delírio e passagem ao ato.

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Assim Lacan descreve o crime das irmãs Papin:

Uma noite, 2 de fevereiro, esta obscuridade se materializa por um simples curto-circuito elétrico. Uma inabilidade das irmãs é o que provocou, e por coisas menores as patroas ausentes já haviam demonstrado o seu mau-humor. Que dissera a mãe e a filha quando, ao voltarem, descobriram o pequeno desastre? As declarações de Christine variaram sobre esse ponto. Seja como for, o drama se desencadeia muito rapidamente, e sobre a forma de ataque é difícil admitir outra versão da que deram as irmãs, a saber, que ele foi súbito, simultâneo, levado de saída ao aproxismo do furor: cada uma delas subjuga uma adversária, arranca-lhe, em vida, os olhos da órbita – fato inédito, dizem nos anais do crime – e a espanca. Depois, com ajuda do que encontram a seu alcance, martelo, pichel de estanho, faca de cozinha, elas encarniçam o corpo de suas vitimas, esmagam-lhes as faces, e, deixando à mostra o sexo delas cortam profundamente as coxas e as nádegas de uma para ensanguentar a outra. Lavam, em seguida, os instrumentos desses ritos atrozes, purificam-se a sim mesmas, e deitam-se na mesma cama: “agora está tudo limpo!” Esta é a fórmula que trocam e que parece dar o tom de desilusão, esvaziado de qualquer emoção, que a elas sucede à orgia sangrenta. (Lacan, 1933, p.381-382)

Bibliografia:

FREIRE, Dercirier. Paranoia e Crime: do Direito à Psicanálise. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.

LACAN, Jacques. (1933). Motivos do crime paranoico: o crime das irmãs Papin. In: Da psicose paranoica e suas relações com a personalidade. Rio de Janeiro: Forense, 2011.

3º Encontro - 30/09/2020

Charles Manson, Jim Jones e Osho

Charles Manson, Jim Jones e Osho, três líderes com seguidores dispostos a tudo. Os três levaram seus seguidores a atos extremos: os de Manson cometeram assassinatos, os de Jim Jones suicídio e os de Osho fundaram uma cidade fortemente armada onde foram cometidos vários crimes.

“Se o líder for embuído de valores  benéficos e tenha dominado seus próprios desejos pulsionais tudo sairá bem. Mas, como isso é quase impossível, as consequências  nefastas são facilmente previsíveis. Afinal,  a  ambição em liderar já explicita a não abdicação pulsional do líder e que ele estará em condições de usar a massa acéfala a serviço de suas ambições pulsionais”. (FREUD, O Futuro de uma ilusão,1927, p. 17).

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Charles Manson (1934-2017) - mentor e mandante de assassinatos que chocaram os Estados Unidos na década de 60. Foi responsável pela morte de sete pessoas, ordenou o assassinato de todas, sem matar  nenhuma com suas mãos. Todas foram praticadas por seus seguidores. Em agosto de 1969, Manson ordenou que alguns de seus seguidores começassem os assassinatos. Seguros do anonimato, já que estavam em grupo, e embuídos pela onipotência a eles dada por Manson, mataram brutalmente a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, e mais quatro convidados presentes. Nos dias que se seguiram novos assassinatos foram cometidos.

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Jim Jones (1931-1978) - chamado de o reverendo assassino matou mais de 900 pessoas de uma única vez. Considerado líder do culto mais mortal dos EUA. Em 1977, fundou um vilarejo na Guiana chamado, Templo dos Povos, Jonestown.  Reinou como um líder absoluto até novembro de 1978, quando ordenou o suicídio em massa.

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Osho - (1931-1990) - foi um dos líderes espirituais mais populares do mundo e  criou uma polêmica comunidade alternativa que levou ao caos  uma cidade dos EUA. Ele usava vestes específicas de líderes religiosos hindus e  barba longa, possuía olhar e semblantes reconfortantes. Cativados pela imagem de seu líder religioso, seus seguidores supervalorizam o objeto amado e entregavam-se a rituais de histeria coletiva com sessões  de gritos, danças e contorções.

Referências:

 

FREUD, Sigmund. (1921). Psicologia das Massas e Análise do eu. In: ESB,  v. XVIII . Rio de Janeiro: Imago, 2004.

FREUD, Sigmund. (1927). O Futuro de uma Ilusão. In: ESB, v. XXI, Rio de Janeiro: Imago,  2004.

GUINN, Jeff. Manson, a biografia. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2014.

 

Documentário: Wild, Wild, Country – disponível na Netflix

Documentário: Jonestown - vida e morte no Templo do Povo - https://youtu.be/IKAq62WxTJw

4º Encontro - 14/10/2020

Psicopatia

 

O diagnóstico de psicopatia, ou Transtorno de Personalidade Antissocial, é feito pela psiquiatria, com base nos Manuais Diagnósticos Psiquiátricos (DSM e CID), ou pela psicologia através da Escala Hare. Entretanto, a repercussão desse diagnóstico ocorre em várias esferas: jurídico, social, midiática, popular.

Diversos sujeitos que cometem crimes recebem o diagnóstico de psicopatia, o que produz consequências inevitáveis em seus julgamentos. Eles são considerados imputáveis pela legislação, mas são julgados sob o estigma da psicopatia.

A evolução do termo “psicopatia” mostra que os critérios para diagnosticar a psicopatia foram desenvolvidos a partir de julgamentos morais. A psicanálise não trabalha com o diagnóstico de psicopatia. Para a psicanálise o que há são estruturas clínicas: neurose, psicose e perversão. Nenhuma dessas estruturas é compatível com o Diagnóstico de Psicopatia. Diante de um ato criminoso ou de um comportamento considerado socialmente inadequado não é possível dizer se um sujeito possui uma ou outra estrutura clínica.

 

Bibliografia:

Elias ABDALLA-FILHO, Miguel CHALUB,; Lisieux E. de Borba TELLES

Psiquiatria Forense de Taborda. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

 

Jacques LACAN

(1948). A agressividade em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.104-126.

 

(1950). Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 127-151.

 

Michel FOUCAULT

(1974-1975). Os anormais – Curso no Collège de France. 3 ed., São Paulo: Martins Fontes, 2013.

 

Sigmund FREUD

(1930 [1929]). O Mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ESB). v. XXI, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

5º Encontro - 28/10/2020

● Assassinos em série

Modus operandi (MO)

● Assinatura

● Assassinos em série desorganizados

● Assassinos em série organizados

 

Assassinos em série

 

Os assassinatos em série provocam grande repercussão não só na população, mas também nos profissionais das áreas jurídica, da segurança pública e da saúde. Esses profissionais - delegados, juízes, advogados, promotores, psiquiatras forenses - e a população em geral, buscam explicações para dar sentido a tais crimes, aparentemente, sem motivação.  Alguns chegam a descrever com detalhes os crimes e chamam os autores de “doentes mentais”, caso apresentem os fenômenos clássicos da psicose, ou de psicopatas, caso sejam considerados mentalmente capazes.

Os assassinos em série (serial killers) são definidos como aqueles que cometem uma série de homicídios durante algum período de tempo e com pelo menos alguns dias de intervalo. Além disso, os assassinatos possuem o modus operandi (MO) e a assinatura.

 

Modus operandi (MO) – é a forma pela qual o assassino age para que o crime propriamente dito possa acontecer. São os meios, modos de operação, que viabilizam que o crime possa ser cometido. Para traçar um MO são levados em conta: arma utilizada, tipo de vítima, locais dos crimes. O MO pode ser aperfeiçoado com o tempo, pois o assassino pode perceber que uma ou outra via de atuação irá facilitar a prática do assassinato. Assim, ele pode matar as primeiras vítimas arrombando a casa e, com o tempo, perceber que pode entrar com a anuência da própria vítima, seduzindo-a. Pode também usar um carro pequeno e à medida que comete os homicídios perceber que  precisa de um carro maior para transportar os corpos.

 

2º Assinatura – A assinatura é sempre única e diz respeito a uma necessidade do assassino agir daquela forma específica e seguir um ritual. Assim, se ele mata somente por estrangulamento essa é assinatura dele. Há também seriais que: mutilam as vítimas post mortem; as estupram antes ou depois de matar; que usam um único tipo de amarração da vítima; deixam o corpo em uma posição específica; torturam a vítima;  praticam o overkill (ferir mais do que o necessário para matar).

São práticas que levam os peritos a saberem que se trata do mesmo autor, pois a repetição é da ordem de uma necessidade.          Diferente do MO, a assinatura nunca muda, evidenciando a necessidade daquele ato para o autor do crime. Segundo Lacan (1950), a assinatura deixada pelo criminoso pode indicar um momento de identificação do eu.  

Muitas assinaturas dos crimes têm correlação com a imagem indelével, conceito desenvolvido por Jean Claude-Maleval, psicanalista francês. A imagem indelével mantém o sujeito preso a uma cena/imagem e há um empuxo para repeti-la.

Os assassinos em série são divididos em duas categorias: organizados  e desorganizados.

 

Assassinos em série desorganizados

Os assassinos desorganizados apresentam uma forte inadaptação às normas sociais e familiares. Eles são considerados, pelos laudos psiquiátricos, “doentes mentais”, ou seja, inimputáveis. A maioria apresenta delírios ou alucinações constatados pelos laudos psiquiátricos.

É muito claro quando estamos diante de um assassino desorganizado. Os atos para cometer os assassinatos não são preparados, a cena do crime é desorganizada, o discurso do acusado tende a ser desorientado.  Nesse caso, não há dúvidas que estamos diante de uma psicose.

Pedrinho matador (Pedro Rodrigues Filho)

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Pedro tem orgulho de ser matador. Acredita-se que matou mais de 71 pessoas. Ficou preso 42 anos e, atualmente, está em liberdade.

Assassinos em série organizados

 

Os assassinos em série classificados como organizados apresentam uma vida aparentemente “normal”, já que se comportam como se estivessem integrados aos valores sociais vigentes: têm emprego, vida familiar e convívio social. Este cenário de vida montado deixa-os fora do rol de suspeitos por anos.  O Direito, a partir de laudos psiquiátricos, classifica esses assassinos como plenamente capazes de responder pelos seus atos e, muitas das vezes, os considera psicopatas.

Um tipo comum desse tipo de assassino são médicos e enfermeiros, que passam anos matando sem levantarem suspeitas e beneficiam-se da profissão para terem acesso fácil a medicamentos que usam para matar as vítimas. Normalmente, repetem uma cena quando cometem os assassinatos.

Nestes casos, o diagnóstico de psicose é contestado. Logo, uma questão de diagnóstico diferencial se impõe.  O caso do Sr. M., considerado um masoquismo atípico por quem o atendeu, apesar de não ser um caso de assassino em série, é interessante para pensarmos que uma perversão extrema aponta para um possível psicose. O caso do Sr. M. foi muito estudado, na década de 70, por psicanalistas e psiquiatras.

Monstro do Morumbi

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Bibliografia:

Dercirier FREIRE

(2018) Serial killers: suplência perversa em psicóticos? In: A céu aberto: inconsciente na clínica das psicoses. DIAS, Maria Filomena Pinheiro & LEVY, Silvia Maria de Souza (Orgs.). Rio de Janeiro: Contra Capa: 2018.p.67-73.

 

Ilana CASOY

(2017) Arquivos serial killers: louco ou cruel? Made in Brasil. Rio de Janeiro: DarkSide Books.

Jacques LACAN

(1950) Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 127-151.

Jean-Claude MALEVAL

(1995) Suplencia perversa en un psicótico. In: La actualidade del sintoma. Montevidéo: Psicolibros Waslala, 2010, p. 162- 179.

 

(2009) Sobre a fantasia no sujeito psicótico: de sua carência e seus substitutos. In:  A soberania da clínica na psicopatologia do cotidiano. BESSET, Vera Lopes & CARNEIRO, Henrique Figueiredo (Orgs) Rio de Janeiro: Garamond,  p.13-44.

6º Encontro - 11/11/2020

● Estudo de caso: Theodore Robert Bundy

● Assassino em série organizado ou desorganizado?

Modus operandi (MO)

● Assinatura

● Presença de delírio?

● Imagem indelével?

TED BUNDY

(1946-1989)

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Assassino em série confesso de mais de 30 mulheres, acredita-se que matou mais de 65. Matou em diferentes estados dos EUA durante os anos de 1970. Passou anos negando os assassinatos e atuou como advogado no próprio julgamento. Carismático, eloquente, educado e inteligente cursou psicologia e ingressou na faculdade de Direito. Foi executado na cadeira elétrica em 1989.

  

 Suas vítimas eram mulheres brancas, jovens e com cabelos longos e repartidos.

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Referências:

Andréa Máris Campos GUERRA

 

A psicose. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. 

Ann, RULE

(2019) TED BUNDY – Um Estranho ao Meu Lado. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2019.

Dercirier FREIRE

(2018) Serial killers: suplência perversa em psicóticos? In: A céu aberto: inconsciente na clínica das psicoses. DIAS, Maria Filomena Pinheiro & LEVY, Silvia Maria de Souza (Orgs.). Rio de Janeiro: Contra Capa: 2018.p.67-73.

Ilana CASOY

(2017) Arquivos serial killers: louco ou cruel? Made in Brasil. Rio de Janeiro: DarkSide Books.

Jacques LACAN

(1950) Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 127-151.

(1957-1958). De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 537-590

Jean-Claude MALEVAL

 

(1995) “Suplencia perversa en un psicótico”. In: La actualidade del sintoma. Montevidéo: Psicolibros Waslala, 2010, p. 162- 179.

 

(2009)  Sobre a fantasia no sujeito psicótico: de sua carência e seus substitutos. In:  A soberania da clínica na psicopatologia do cotidiano. BESSET, Vera Lopes & CARNEIRO, Henrique Figueiredo (Orgs) Rio de Janeiro: Garamond,  p.13-44.

 

Filme de 2019, direção de Joe Berlinger:  TED BUNDY: a irresistível face do mal.

Documentário de 2019: Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy.

7º Encontro - 25/11/2020

● Sigmund Freud: culpa e desejo de punição

● Filme 1922: debate do filme

● Apresentação do Seminário de 2021.1: o caso Landru

Filme 1922
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Direção: Zak Hilditch

Baseado na obra de Stephen King 1922

Gênero: drama-terror

2017 – Distribuição Netflix

Em  1922, um fazendeiro decide matar sua esposa (Arlette), pois ela deseja vender as terras que havia herdado e mudar para a cidade. Wilfred (Thomas Jane),  marido de Arlette (Molly Parker), não quer deixar a fazenda e convence o filho Henry (Dylan Schmitch) que matar  Arlette é a única solução. Assim, marido e filho se unem para colocar em prática um assassinato cercado de muito sangue. A partir daí desencadeiam-se eventos que incluem alucinações, mortes, solidão e muito sofrimento cuja culpa  conduz para uma punição sem volta.

Interessante observar que o filme inicia com Wilfred escrevendo uma carta em meio a alucinação de ratos que o perseguem.

Referências:

Filme 1922

 

Sigmund FREUD

_____. (1916). Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (ESB).  v. XIV, 1996.